Ex-juiz alivia para Flávio Bolsonaro, pego em negociações milionárias com Daniel Vorcaro; não é a primeira vez que Moro passa pano para corruptos e corruptores
O senador Sergio Moro tem um Código Penal todo próprio. Nele, os artigos que têm a ver com o crime de corrupção recebem uma emenda que não é encontrada nas edições convencionais. No livro de Moro, para que o ato seja enquadrado como corrupção ativa ou passiva, é preciso que pelo menos um dos envolvidos esteja filiado ao Partido dos Trabalhadores.
Nesta quinta-feira (14), Moro – que não surpreendentemente surgiu para o mundo como juiz de uma operação que rapidamente se transformou numa caça ao petismo – fez publicar uma nota afirmando que a relação íntima e milionária entre Flávio Bolsonaro (seu candidato a presidente) e Daniel Vorcaro (banqueiro que se tornou pivô do maior escândalo financeiro do país) não se enquadra como corrupção.
O motivo apresentado pelo ex-juiz: nem Flávio nem Vorcaro é filiado ao PT; e, não sendo filiados ao PT, não existe hipótese de serem corruptos. Simples assim. “Sinônimo de corrupção no Brasil é o PT”, diz a nota do senador. Veja bem: Vorcaro, segundo o ex-juiz, não é sinônimo de corrupção, o que revela que além de um Código de Processo Penal, Sergio Moro tem também o próprio dicionário de sinônimos.
Evidente que todo candidato tem adversários, e que falar mal dos adversários é do jogo. Evidente também que falar mal do petismo no Paraná dá votos. Moro sabe ainda que, aqui, basta se consolidar como campeão do antipetismo para ter chances reais de se eleger para qualquer cargo, por mais que sua plataforma eleitoral se reduza a isso.
No mês passado, o repórter José Marcos Lopes, do Plural, perguntou a Moro sobre outro caso de corrupção ligado a Flávio, ocorrido justo quando o ex-juiz estava no Ministério da Justiça. Jair Bolsonaro, presidente, foi gravado dizendo que iria interferir na Polícia Federal para que não ferrassem com seu filho – sim, o próprio Flávio, acusado de rachadinha. Moro saiu do governo.
José Marcos perguntou como Moro podia garantir que Flávio, caso chegasse à Presidência, não iria também trabalhar contra o combate à corrupção. A resposta, claro, foi uma só. Flávio Bolsonaro não é do PT. E aí veio um exercício de retórica – e exercícios de retórica não são, definitivamente, a praia de Moro. Se o maior escândalo do país hoje é o roubo do INSS, e se a culpa disso é do PT (sic), corrupção continua sendo coisa do PT. O resto, disse ele, é factoide.
Aparentemente, um áudio do presidenciável do PL pedindo milhões para o banqueiro que torrou dezenas de bilhões do Fundo Garantidor de Crédito é mais um factoide para Moro.
Caso chegue ao governo, diz ele, transformará o Paraná numa fortaleza contra a corrupção. Mas como, na lei dele, corrupção é só a do PT, basta não ter nenhum petista no governo. E se alguém descobrir uma licitação fraudada, uma rachadinha, um contrato superfaturado, ora, será só um factoide, e ponto final.
Responsável Editorial: Robson Leandro Nequel (Editor)
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